Entrevista com Dr. Rui Leão Martinho – Bastonário da Ordem dos Economistas

Solicitámos ao Dr. Rui Leão Martinho – Bastonário da Ordem dos Economistas as suas reflexões para as questões infra e para os cenários apresentados:

 

O Banco de Portugal elaborou, dois possíveis cenários – “um cenário base e um cenário adverso” – com hipóteses diferentes sobre os efeitos económicos da pandemia, e considerando a incerteza exacerbada e a complexidade das projeções.

No cenário base estima-se uma redução de 3,7 por cento do PIB real em 2020, associada à destruição da capacidade produtiva instalada. O perfil da atividade económica em Portugal acompanha os desenvolvimentos a nível global e, em particular, na área do euro.

 

1 – Neste cenário e mesmo considerando as projeções de recessão, o Banco de Portugal assume “que o impacto económico da pandemia é relativamente limitado, o que decorre, em parte, da hipótese de que as medidas adotadas pelas autoridades económicas são bem-sucedidas na contenção dos danos sobre a economia”. Concorda?

No cenário adverso, assume-se que o impacto económico da pandemia é mais significativo devido à paralisação mais prolongada da atividade económica em vários países, conduzindo a maior destruição de capital e á perda de emprego e que haja uma maior incerteza e níveis de turbulência mais significativos nos mercados financeiros. Neste caso, com o PIB a reduzir-se 5,7 por cento em 2020.

 

                    Desde o inicio desta crise que são vários os cenários que quer o Banco de Portugal, quer outras instâncias nacionais e internacionais estimam para o PIB deste ano e dos anos seguintes.

                   Seja qual for a previsão para a queda do PIB, sempre um cenário negro nos surge.

Na verdade, uma paralisação da actividade em muitos sectores e actividades e uma diminuição acentuada quer do lado da oferta, quer do lado da procura, em geral será difícil de recuperar no curto prazo.

Daí que até há previsões que estimam esse valor próximo de 15%, como o Unicredit. Outros estimam valores mais baixos, mas de qualquer forma no que respeita às previsões da Missão Crescimento (Think-tank de que a Ordem dos Economistas é uma das entidades fundadoras) essa queda vai sempre situar-se entre 8 e 14%.

                  Quanto às medidas tomadas pelo governo actual, estas foram as possíveis, mas deviam ter sido objecto de maior simplificação para que pudessem ser mais eficazes no primeiro embate com os efeitos da crise.

                  Neste momento, a expectativa mais relevante das empresas, dos seus dirigentes e dos trabalhadores reside nos apoios da União Europeia. Um conjunto de medidas estão já anunciadas e poderão fazer a diferença na capacidade de recuperação da

                  economia, aproveitando as novas tecnologias, imprimindo maior celeridade à economia circular e à economia do conhecimento, tão necessária para a criação de condições para o nosso crescimento económico. 

 

2 – Qual a sua opinião em relação a estes dois cenários, concorda com os mesmos ou considera haver espaço para outras análises?

 

                      Há espaço para várias análises e já o expressei na questão anterior. Portugal vai ter de trabalhar muito, aproveitar os fundos à disposição de forma capaz e transparente e recuperar, dessa forma, mais rapidamente da crise que nos assola.

                      Só dessa maneira poderá encurtar a duração do período de queda do PIB e de outros indicadores económicos, aproveitando esta oportunidade para rectificar o que está a malfazer as necessárias reformas e preparar o futuro.

 

3 – Quanto ao mercado de trabalho em Portugal, estima-se que haja uma queda do emprego e uma subida da taxa de desemprego em 2020 e uma recuperação já em 2021. Não será otimista o cenário para 2021?

                     O mercado de trabalho em Portugal estavam, nos últimos anos, com uma taxa muito favorável, devido a actividades que foram agora das primeiras a entrar em crise: o turismo e o imobiliário. Se estes sectores recuperarem depressa, o desemprego será menor, mas mesmo assim é prudente esperar que 2021 ainda seja um ano difícil.

                  

                    Igualmente importante em matéria de mercado de trabalho é ter condições para elevar o salário médio que, desde há muitos, se aproxima perigosamente do salário mínimo, com todas as consequências que isso acarreta.

 

4 – Relativamente às exportações de bens e serviços é esperada uma redução em 2020 da procura externa dirigida à economia portuguesa, associada ao enfraquecimento da atividade económica mundial. Quais os impactos no turismo e à redução esperada da procura global deste tipo de serviços, que será muito significativa?

 

                    As exportações, em geral, que nos anos da troika subiram brilhantemente de importância e de nível, através de um trabalho bem orientado das empresas e das suas associações, aliadas à acção governamental, sofreram muito com a presente

                    crise e esperam agora começar a sua recuperação, com a reabertura das economias com quem temos maior relação transacional. Igualmente, o turismo sofreu um grande revés e a recuperação tão desejada deverá ser lenta e deixará decerto

                   um rasto de algum desemprego e de uma parcial ocupação dos equipamentos vários já existentes nesta actividade.

                   Deveremos saber aproveitar este período para tentar ainda mais elevar o nosso volume de exportações e o número de países para onde exportamos e, no que respeita ao turismo, tentar fugir um pouco do que se designa como turismo de massas

                  e tentar aproveitar o património e as infraestruturas turísticas que já temos para elevar o nível de turismo que oferecemos.

 

Fica expresso o agradecimento da Plataforma E-Gov ao Dr. Rui Leão Martinho – Bastonário da Ordem dos Economistas por esta dupla colaboração, como nosso convidado num dos pontos altos do Ciclo de Conferências “O Futuro da Economia e das Empresas” que estamos a levar a cabo, assim como por esta reflexão que aqui acabámos de transcrever.

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