Falhar tem de ser uma possibilidade

João Barroso

O presente artigo, da autoria de João Barroso, foi inicialmente publicado no grupo “Politica com Cerveja”, à qual agradecemos esta oportunidade de reproduzir o conteúdo.

Seguem os links da “Política com Cerveja”:

Facebook – https://www.facebook.com/PoliticaComCerveja/?ref=page_internal

Podcast – https://soundcloud.com/politicacomcerveja?fbclid=IwAR3syhI4N7-kWA0Rv6IV5yOW19_zC-9RK2c7G2Broew1ykRWdiMTU_jbcW0

 

Como seres humanos, está na nossa natureza extrair significado do percurso que fazemos ou que vemos outros fazerem, uma boa história só o é porque as personagens nela inseridas têm uma evolução ou de alguma forma um percurso razoavelmente volátil de avanços e recuos.

É também no processo, na oportunidade de poder falhar, que existe um sistema de aprendizagem que nos permite mais tarde conseguirmos atingir os nossos objectivos. Assim, de forma pouco consciente, extraímos significado desse mesmo processo.

Mas parece que existem momentos em que, além de não confiarmos na nossa intuição, parece abrirmos a maior das excepções na nossa cadeia de pensamentos lógicos e racionais. A Banca!

 

A Banca é o tema que mais miolos já chacinou neste país: 99% das pessoas não compreende como funciona; 0,99% estão comprometidas com as fraudes que nela são cometidas; e os restantes 0,01% são aqueles como eu, os que acham que compreendem alguma coisa, mas como tudo parece um abusivo esquema de pirâmide, e todos à sua volta parecem estar inseridos no matrix, ficamos nós sempre na esperança de que as suas conclusões apocalípticas não se realizem (até um certo ponto) ou que o seu raciocínio esteja de alguma forma errado.

 

As empresas conseguem ser eficientes, conseguem fornecer bons produtos e serviços aos seus clientes, e conseguem ser bem geridas, mas para tal acontecer, a falência tem de ser um desfecho possível da sua existência, assim como perder um jogo tem de ser uma possibilidade para o jogo se tornar competitivo e verdadeiramente interessante.

Infelizmente, criou-se culturalmente uma espécie de fantasia utópica, um paraíso na terra nos nossos ideais que acredita que a vida seria possível sem qualquer sofrimento, que a vida seria sequer interessante sem sofrimento, sem uma resistência por parte do contexto que nos rodeia. Para os bancos, essa é a melhor história possível para os seus bolsos, um mundo onde o dinheiro é criado na hora e onde a escassez não é uma realidade, onde as pessoas consomem por consumir e pedem crédito por acreditar piamente no sistema. Onde a competição é só em nome, e as salvações com dinheiro das vítimas do fisco são como as passagens pagas para o céu.

 

Há estruturas que vale a pena serem salvas, mesmo tendo os seus problemas, muitas delas conseguem ser reformadas ou totalmente modificadas em poucos anos; os bancos, por sua vez, não têm nada que se salve além das suas sedes onde se poderiam fazer museus a relembrar os horrores do passado (como se faz em Auschwitz para relembrar o Holocausto).

Claro que no meio de tanto erro, de tanta falácia e de tanta desonestidade, o Bloco de Esquerda consegue fazer todos os ataques ao sistema financeiro e ao mesmo tempo não compreender nada sobre o assunto.

 

Cada vez que oiço Mariana Mortágua falar na televisão, retenho duas ideias fundamentais do seu raciocínio:

1 – O problema está “no egoísmo dos porcos capitalistas” (estou quase a parafrasear);

2 – A estrutura bancária ainda mais centralizada nas mãos do Estado vai ser melhor para a população em geral.

 

A primeira ideia é totalmente ingénua e nasce de alguns pressupostos mais ingénuos ainda, “O Estado quer saber dos cidadãos”, “O Estado está cá para defender os pequeninos”, “No Estado somos altruístas”.

Se não bastar referir quais os pressupostos, deixem-me esclarecer melhor: “No Estado, as pessoas também têm interesses pessoais”, “O Estado partiu das elites e as elites é que fazem uso dele”.

 

Voltando às ideias do raciocínio de Mariana Mortágua.

 

Apesar da primeira ideia (o problema está “no egoísmo dos porcos capitalistas”) ser extremamente simplista e praticamente inútil, na minha humilde opinião, penso que está bem assente na bandeira portuguesa: 1/3 da bandeira representa a esperança, neste caso, a esperança de que as pessoas no Estado sejam todas altruístas; e os outros 2/3 representam o sangue, que é derramado com esperança em ideias parvas como esta.

 

A segunda ideia precisaria de muito mais linhas para ser explorada (a estrutura bancária ainda mais centralizada nas mãos do Estado vai ser melhor para a população em geral), mas fica resumidamente invalidada quando confrontada com os seguintes argumentos: 

– Concorrência traz mais poder à pessoa comum;

– Onde há monopólios, quem sai prejudicado é a pessoa comum;

– Os bancos não são alienígenas e por isso regem-se por estas mesmas regras;

– O Estado e as pessoas do Estado também não são alienígenas;

 

Como é que monopolizar ainda mais vai ajudar a pessoa comum? Alguma coisa me passou ao lado e a CGD é exemplo para alguma coisa agora?

Não se deixem seduzir pela insípida utopia do mundo perfeito onde ninguém vai à falência e onde qualquer objectivo é instantaneamente conseguido com a varinha mágica da Mariana Mortágua e do BCE. 

Felizmente, não vivemos num buraco de insignificância, e até a criticar instituições criminosas e vendedores da banha da cobra, consigo tirar algum proveito deste doloroso processo de reflexão.

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